No início do século XX, mais precisamente em 1922, aconteceu um dos marcos mais importantes da nossa história, verdadeiro ponto de inflexão no modo de ver o Brasil, A Semana de Arte Moderna de 22, que contou com a participação de escritores, artistas plásticos, arquitetos e músicos, entre eles, Tarsila do Amaral, Mario de Andrade, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Oswald de Andrade e Brecheret. Seu objetivo era renovar o ambiente artístico e cultural: produzir uma arte brasileira, afinada com as tendências vanguardistas da Europa, sem, contudo, perder o caráter nacional. Deste movimento, surgiu o Manifesto Antropofágico que tocou no cerne do capitalismo no terceiro mundo: a dependência. Ou pelo menos captou seus reflexos no plano da cultura. Denunciou o bacharelismo das camadas cultas, que permanecem alheadas da realidade do país, reproduzindo os simulacros dos países capitalistas hegemônicos. Ironizou a consciência enlatada de largos setores do pensamento brasileiro, que se comprazem, quando muito, em assimilar idéias, jamais criá-las.
Em 1970, Ariano Suassuna, em conjunto com outros artistas, lançou o movimento Armorial, que tinha como objetivo valorizar a cultura popular do Nordeste brasileiro, através da criação de uma arte erudita brasileira a partir das raízes populares da nossa cultura. A literatura de cordel foi a grande fonte inspiradora, pois acreditava que ali se expressava as aspirações e o espírito do povo brasileiro. Desde o início o Armorial congrega nomes importantes da cultura brasileira, como o próprio Ariano Suassuna, Francisco Brennad, Raimundo Carrero, Gilvan Samico e outros. Integraram o movimento grupos como: Balé Armorial do Nordeste, Orquestra Armorial de Câmera, Orquestra Romançal e Quinteto Armorial.
Na música, em especial, alguns autores foram fundamentais nesse processo, compositores de cunho nacionalista, entre os quais destacam-se Villa-Lobos, que deixou como legado diversas obras sinfônicas com inspiração popular – Os Choros, a Suíte Popular e Os 12 Estudos ambos para violão, alguns dos Quartetos de Cordas, além da incursão no universo da composição operística; Guerra Peixe, que acentuou essa característica com a inserção de instrumentos da música popular na música sinfônica, além de trazer de forma efetiva e contundente o som e o cheiro da cultura popular para as suas composições – Mourão, Suíte Nordestina, Suíte Pernambucana; e Radamés Gnatalli, que aprofundou ainda mais a relação entre os universos erudito e popular na música brasileira, compondo já no original para orquestra e instrumento solista popular com o desenvolvimento de temas sinfônicos baseado em choro, polca, samba – Suíte Retratos, Brasiliana nº 13 para violão. Temos ainda, teóricos e intelectuais de altíssimo nível como Ariano Suassuna e Mário de Andrade que contribuíram para um pensamento plural e universal do valor e importância da cultura e da arte popular no Brasil e no mundo.
É no meio desta profusão de definições que o Centro de Ópera Popular de Acari trabalha, contribuindo para a imensa miríade em que se encontra esta arte, ainda tão pouco explorada no Brasil.